A pandemia pelo COVID-19 afetou o diagnóstico (detecção de novos casos) e o tratamento oncológico. Estudos indicam que houve um declínio de 10% nos registros de câncer em geral, na população americana, quando comparado 2020 a 2019. No período de março a julho de 2020 em comparação a 2019, houve uma redução substancial na realização de exames de prevenção e diagnóstico precoce, além de biópsias, cirurgias, consultas médicas e tratamentos. No pico da pandemia nos Estados Unidos, em abril de 2020, o rastreamento para câncer de mama, colon, próstata e pulmão foram reduzidos em 85%, 75%, 74% e 56% respectivamente. Além disso, houve uma queda significativa na administração de tratamentos oncológicos, cerca de 26% em abril e 31% em julho.

Com o temor pelo risco de contágio pelo COVID-19, especialmente em uma população imunossuprimida e vulnerável, os consultórios, clínicas e hospitais foram evitados ao máximo. Os riscos para pacientes, familiares e equipes de saúde levaram a reconsiderar o momento de fazer exames e tratamentos. Na oncologia, os tratamentos quimioterápicos foram modificados para reduzir riscos, sempre que possível, seguindo as recomendações das sociedades médicas reguladoras, no mundo todo. No caso do câncer de mama, muitos tratamentos quimioterápicos foram substituídos por hormonioterápicos quando aplicável, e os tratamentos foram mantidos por mais tempo (foram realizados mais ciclos de tratamento) antes da abordagem cirúrgica. Além da preocupação de reduzir os riscos, houve períodos de desabastecimento de materiais, medicamentos e equipamentos de proteção, levando à postergação de exames diagnósticos e cirurgias. O adoecimento de profissionais da saúde e pacientes contaminados e afastados do trabalho também foi responsável por um aumento na espera para tratamento e diagnóstico.

Um estudo conduzido no Centro Médico de Irving, hospital acadêmico da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, avaliou o impacto da pandemia nas pacientes com câncer de mama que foram avaliadas de fevereiro a abril de 2020. Nesta época Nova Iorque reduziu a força de trabalho, com diminuição na capacidade de leitos hospitalares e suspenção de cirurgias eletivas. Os resultados deste estudo mostraram que o retardo no início do tratamento do câncer de mama já diagnosticado foi em média de 24,5 dias (de 5-84 dias). O atraso nas cirurgias e radioterapia foi de 47 dias (média de 8-97 dias) e 55 dias (média, de 12-70 dias), respectivamente. Estima-se que o atraso em quatro semanas para o início da quimioterapia adjuvante (após a cirurgia) pode se associar a uma redução nas taxas de sucesso do tratamento em 15%, especialmente em subtipos mais agressivos de câncer de mama, o que é muito preocupante.

Não dispomos dos números oficiais no Brasil quanto ao prejuízo na assistência ao paciente com câncer em decorrência da pandemia, mas tendo em vista que praticamos as mesmas restrições vistas no resto do mundo e apresentamos uma realidade socioeconômica adversa em uma significativa camada da população, é possível imaginar o trágico desfecho em parte de nossa população de pacientes com doenças graves.

Com as ordens de fechamento de todos os serviços não essenciais, incluindo escolas, as incertezas financeiras para grande parte da população, demissões, redução dos serviços de transporte público, seria de esperar que a camada mais vulnerável do ponto de vista socioeconômico seria também a mais afetada durante a pandemia. A pandemia pelo COVID-19 exacerbou as disparidades do sistema de saúde pré-existentes. Infelizmente, estamos observando um aumento significativo e crescente na espera por exames e tratamentos na área da oncologia no Sistema Único de Saúde. O diagnóstico do câncer começa no atendimento nos postos, nos exames básicos, e durante a maior parte de 2020 e 2021 este atendimento ficou seriamente comprometido, em uma área que já carecia de investimentos. O futuro é previsível: espera-se um aumento no número dos casos mais graves de câncer com consequente redução nas taxas de cura, associadas a um grande sofrimento psicológico. Os serviços de saúde do SUS se adequaram a pandemia e mantiveram atendimento pleno, inclusive com a adoção da telemedicina, mitigando em parte as dificuldades. Entretanto, ocorre a cada dia um aumento na procura de tratamento no setor público. Somente o aumento nos investimentos na área será capaz de reduzir esta lacuna.

Utilizando mais uma vez dados norte americanos, estima-se que a pandemia possa ser responsável por um excesso de aproximadamente 10.000 mortes por câncer de intestino e de mama devido aos atrasos nos exames de rastreamento e tratamentos. Por outro lado, é possível reduzir este problema de saúde pública com medidas para acelerar o acesso da população, com campanhas de realização de exames básicos e investimentos nos centros de tratamento oncológico habilitados pelo SUS.

Cabe ponderar também que será esperado um aumento no número de casos de câncer nos próximos anos decorrentes não somente das dificuldades de acesso aos serviços de saúde, mas também por dados preocupantes: estamos vivenciando um aumento nos índices de abuso a bebidas alcoólicas, sedentarismo e obesidade, além de depressão e condições psiquiátricas. Somente com o tempo seremos capazes de avaliar os impactos a médio e longo prazo ocasionados por todas as mudanças ocorridas durante e após a pandemia por COVID-19.

Dra. Daniela Lessa
Diretora médica da Oncosinos – Novo Hamburgo