Entrevista exclusiva de Dra. Daniela Lessa para caderno Bom Exemplo no Jornal NH de hoje, 27 de agosto.

Em todo o mundo, e especialmente nos países em desenvolvimento, os adultos com mais de 60 anos (seniores), são o grupo de mais rápido crescimento populacional.  Adultos com idade de 65 anos ou mais eram 8.5% da população em 2015, mas projeta-se um aumento dessa faixa etária para 12% em 2030 e 16,7% em 2050. Esse aumento ocorrerá em todas as partes do mundo, e cerca de 70% desse aumento populacional ocorrerá em países em desenvolvimento como o Brasil.

Mais de 60% dos pacientes com diagnóstico de câncer possui mais de 60 anos, o que os torna de fato, a população que mais necessita de tratamento especializado. Nem todas as pessoas envelhecem da mesma forma.

Encontramos adultos de mais de 65 anos correndo maratonas e também frequentemente encontramos pacientes seniores com múltiplas comorbidades tais como doenças vasculares, diabetes, quadros de distúrbio cognitivo (demência), dificuldades auditivas, depressão (muitas vezes não diagnosticada) e quadro de fragilidade física.

Existe ainda é claro, um terceiro grupo desses pacientes que são aqueles que se encontram entre esses dois extremos.  Em outras palavras, existe grande heterogeneidade na população de pacientes adultos com mais de 60 anos com câncer.

Obviamente, esses pacientes não podem e não devem ser tratados todos da mesma forma. Então, como realmente individualizar o tratamento do câncer para este grupo de pacientes?  Isto é possível?

Um conceito básico é o de que o tratamento do paciente sênior com câncer deve ser decidido caso a caso, sempre com o objetivo de diminuir complicações do tratamento do câncer e aperfeiçoar os efeitos benéficos do tratamento oncológico.  No entanto, como tratar de forma individualizada e ótima cada um desses pacientes, tão diferentes entre si?

Antes de tudo, é importante que o paciente procure um Serviço onde o mesmo será avaliado por uma equipe de Oncologistas que sejam treinados nos princípios de Oncologia de pacientes com mais de 60 anos (pacientes seniores), também conhecida como Oncologia Geriátrica. Para Oncologistas com formação nessa área, esses conceitos fazem parte do dia-a-dia no cuidado de seus pacientes.

O paciente deve ser avaliado como um todo através de protocolos específicos, a fim de detectar eventuais fragilidades (pontos fracos), que não são aparentes através de um exame clínico ou laboratoriais de rotina. Essas avaliações, através de escalas de vitalidade, cognição, nutrição, estado emocional, polifarmácia e etc, permitem um olhar bem mais profundo na real situação clínica do paciente. Essas informações permitem ao Oncologista tomar decisões de tratamento com maior chance de benefício para o paciente e ao mesmo tempo com diminuição de riscos tais como complicações cirúrgicas e complicações pós-tratamentos de quimio e/ou imunoterapia, bem como radioterapia.

Na Oncosinos somos pioneiros nessas avaliações e continuamos a apresentar nossos resultados em Congressos Internacionais tais como da Sociedade Europeia de Oncologia e Sociedade Internacional de Oncologia Geriátrica. Acreditamos que, com o uso dessas ferramentas de avaliação de pacientes seniores, conseguimos muitas vezes não apenas reabilitar nossos pacientes mas, também realizar uma chamada pré-habilitação para que os nossos pacientes possam realizar os tratamentos oncológicos com cada vez mais segurança e maiores chances de sucesso.